As sutilezas da cultura do estupro 


– E aí, gatinha? Tudo bem? O que está fazendo de bom?-Tudo bem. Estou em casa assistindo a um filme. E você?

-Quer companhia? Posso ir para sua casa agora.

-Não, obrigada. Estou bem sozinha.

-Não precisa ficar envergonhada. Posso te ver sem problemas.

-Não precisa. Quero ver o filme sozinha.

Uma hora depois…

-E aí? Já resolveu sua dúvida? Posso ir?

-Aff…
O diálogo hipotético guarda semelhanças com situações reais e revela dois lados da mesma moeda perversa do patriarcado: a falsa ideia de que o homem precisa ser um conquistador incansável, baseada, principalmente, na outra falsa ideia de que a mulher que diz “não” só o faz, porque foi ensinada a valorizar o próprio passe.

Essa dupla inseparável, a insistência real e a negação, suposta como joguete de resistência, torna ainda mais difíceis as relações, ao convencionarem papéis de gênero que desafiam uma questão extremamente simples: seja de forma gentil ou de forma mais enfática, “não” significa “não”.

Situação constrangedora me veio à cabeça, quando anos atrás um amigo (era o que eu achava) querido me convidou para uma casa noturna. Fui com mais duas pessoas e lá pelas tantas, o querido resolveu que era hora de “atacar”. Durante a conversa, na qual ele se assemelhava a um polvo, me distanciei sem mencionar os excessos, crendo que tal atitude seria uma estratégia gentil. Foi quando ele procurou a amiga que me acompanhava para dizer que eu estava fazendo cu doce. Hoje entendo com mais clareza que não se tratava puramente de imbecilidade da parte dele.

Aliás, repassando histórias vividas por mulheres (essas sim realmente) queridas, percebo que, com absurda frequência, o “não” delas é desrespeitado. Recentemente uma amiga conversava com o crush no whatsapp quando ele disparou um pouco fora de contexto “vou te mandar nudes”. “Não, não manda nada, por favor”. E lá se foi a possibilidade de diálogo. Ele não só insistiu como enviou a foto. Que tipo de homem te mostra o pau mesmo depois de você dizer que não quer ver? Em que momento ele deixa de perceber que isso também é uma forma de violência? Que tipo de autoestima (sei lá, né?) supõe que a varinha de condão dele abrirá as pernas do paraíso?

Caso ocorrido com as feminagentes num bar em frente à UERJ anos atrás: um homem visivelmente bêbado insistia em querer sentar conosco. Diante das negativas, passou a ficar de pé tomando conta da conversa e se intrometendo. Não, isso não é simpático, nem engraçado. Os amigos dele, menos bêbados, riam à distância. O riso afrouxou quando uma de nós foi até lá. “Ou vocês resolvem cuidar do amigo bêbado ou a coisa vai ficar ruim pra ele”. Funcionou.

De alguma forma, creio que esses excessos são cometidos num contexto de enaltecimento desses tais papéis de gênero. Vejam vocês as roupas de bebês. Não raras vezes, encontram-se roupinhas de princesas para meninas, bodys e camisetas com dizeres como “bonequinha”, “à procura do príncipe”. Nas roupas de meninos: “salva-gatinhas”, “solteiro sim, sozinho nunca”. Ficou assustad@? É isso mesmo. Nas roupas de bebês. Ainda usam fraldas e já estão sendo submetidos a esses papéis: o da moça recatada e o do macho caçador. Isso quando não resolvem ridicularizar o pai de menina, dizendo que agora ele vai pagar pelo que fez às filhas dos outros. Como assim? Estão rogando uma praga? Ou realmente acreditam que a mulher não pode exercer sua sexualidade com liberdade e prazer? Parece haver sempre a ideia de que liberdade e prazer estão associados ao homem; à mulher, castidade ou castigo.

Eu poderia falar dos números de violência cometidos pelo machismo nosso de cada dia, mas resolvi tratar do que não cabe nas estatísticas, dessa violência sutil, que vai sendo menosprezada, tratada como algo irrelevante. E essa combinação entre legitimar o papel de predador e desrespeitar os limites das mulheres também é outra forma de sedimentar a cultura do estupro.

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Gravidez – parte IV: Expectativas de uma grávida feminista


Minha segunda gravidez já tinha me ensinado a árdua lição de que a vida segue (ou não) além dos planejamentos. Uma gestação confirmada com um dia de atraso menstrual, cercada de todos os cuidados recomendados nessa época da vida e com um desfecho tão inimaginável. Descobri ali que não somos arquitetos de coisa alguma. São muitas as coisas que não cabem no método, nas escolhas, nas convicções.
À terceira gestação, coube a aceitação do imprevisível. Por não saber da gravidez, as primeiras semanas foram regadas a farra, muito álcool e rock na veia. Já estava me tornando figura habitual do Buffalo’s quando me certifiquei do resultado do teste, não sem uma tremenda dor na consciência. Virada a página da dor, resolvi ficar com a alegria que cada dia me reservava. Se pensei que poderia ocorrer o mesmo infortúnio? Só no dia da confirmação do teste de farmácia. Fora isso, cada dia tinha suas alegrias. No final, ficava o fato de nossa Nina Simone estar tão próxima.
Desde o início, eu desejei a acolhida de uma doula a meu lado e o parto normal humanizado. O primeiro desejo esbarrou em duas questões práticas: minha obstetra não se sentia confortável em trabalhar com uma doula e o meu salário da rede estadual passou a não ser pago ou, quando pago, parcelado em inúmeras vezes.
Ainda assim, contei algum tempo com a assistência da doula Quitéria Chagas Doula, que foi uma presença incrível no primeiro trimestre, mesmo que nunca tenhamos nos visto pessoalmente. Sou grata por cada recomendação, cada orientação, cada link enviado. Sou grata por me perguntar como iam as coisas num momento em que eu só tinha vontade de chorar.
Talvez algumas manas pensem: mas por que não brigou para ter uma doula consigo? Porque sinceramente acho que um profissional contrariado não pode trabalhar bem. Queria Nina Simone vindo ao mundo cercada de amor, não de disputa. As pelejas que a vida lhe reserva já serão muitas. Somos mulheres. Sabemos disso.
Quanto ao segundo desejo, quando perguntei à obstetra se ela fazia parto normal – sim, para quem não sabe, é bom perguntar isso na consulta – ela soltou um “até faço”. Esse “até” bateu fundo em mim. Ela completou a informação com a narrativa de dois partos normais difíceis que ela teria feito na semana. Rapidamente meu racional foi acionado: não cai nessa, está querendo te sugestionar.
Lancei-me à procura de um obstetra que trabalhasse com parto normal humanizado e que aceitasse bem a presença de doula. Consegui algumas indicações com amigos e outras em sites sobre humanização. Depois de longa pesquisa, eis os resultados: os que trabalhavam não eram cobertos pelo meu plano de saúde, os cobertos pelo plano podem ter sido recomendações feitas de coração, mas sem a observância dos filtros que determinei. Na segunda parte da pesquisa, consultei o plano de saúde para saber o percentual de partos normais dos profissionais que eu tinha listado. Qual não foi minha surpresa. A obstetra que vinha me acompanhando tinha 27% de ocorrências de parto normal. Achou pouco? Os outros profissionais tinham 3% ou 0%. Resolvi sossegar e continuar com ela, mesmo sem doula. Já não tinha grana para pagar mesmo.
A cada consulta, a obstetra perguntava minha opção de parto. Isso me irritava profundamente, afinal ela era uma profissional superorganizada. Certamente deveria haver essa observação em algum dos seus registros. Para completar, era uma profissional de poucas palavras, e eu adoro aula em consultório médico, sabe? Gosto quando o médico explica, desenha, demonstra. Era torturante estar com alguém que, quando podia, respondia apenas monossilabicamente as perguntas. Mas, é preciso reconhecer, ela sempre atendeu ou retornou prontamente as minhas ligações, independente do dia ou da hora.
Trinta e seis semanas. Assinei o termo de parto normal. À noite chorava até não poder mais. O que houve? Você não queria parto normal? Sim, eu queria. Mas os termos seriam outros. No documento que assinei sem qualquer conversa esclarecedora sobre ele, eu autorizava o uso de hormônio sintético para apressar as contrações, a ruptura manual da bolsa, a episiotomia. E eu só queria que a profissional me dissesse que nada daquilo é feito arbitrariamente, que primeiro se esgotam as possibilidades de agir do corpo da própria gestante, que os procedimentos todos só são realizados quando estritamente necessário. Adepta que sou do meio termo, defendo até o fim o direito de a mulher não admitir qualquer tipo de interferência no trabalho de parto, mas aceito que, diante de muitas dificuldades, o sofrimento possa ser abreviado. Pensando no termo assinado, chorei pensando que “meu corpo, minhas regras” não vale como lema se você é uma mulher grávida.
Li lindos depoimentos de pessoas queridas que optaram pelo parto domiciliar com parteira. Pelo meu histórico, pelo histórico de minhas irmãs, eu jamais vislumbraria isso. Não me perdoaria jamais se precisasse de UTI neonatal e tivesse optado por não tê-la ao alcance.
Trinta e oito semanas. A pressão ficou mais alta, as hemorroidas, comuns na gravidez, evoluíram para trombose. Nunca tive medo do escuro. Passei a dormir com algum feixe de luz visível. Minhas noites passaram a ser torturantes pela falta de ar constante e pela sensação de claustrofobia. Tinha medo de que essa dificuldade de respirar me acompanhasse no trabalho de parto. A obstetra recomendou a cesariana. Assinei o novo termo. Parto marcado para o dia 7 de março. Desta vez, não chorei.
A essa altura eu já tinha percebido mudança de atitude da obstetra que se tornou mais detalhista e comunicativa, mesmo antes da assinatura do segundo termo, o que me leva a crer que não foi isso que influiu no seu comportamento. Minha teoria de botequim é a de que ela adora os bebês e atura as gestantes para poder chegar até eles, tornando-se mais receptiva conforme o parto se aproxima.
Nina Simone veio à luz de forma linda e pude perceber que uma cesariana também pode ser um parto humanizado. Meu ginecologista que me acompanha há anos e anos fazia parte da equipe médica e chegou a colocar Nina Simone, a cantora, para tocar enquanto eu recebia a anestesia. A equipe interagiu comigo todo o tempo e a obstetra explicava detalhadamente cada procedimento. Havia um pouco de mecônio no líquido amniótico, o que configura início de sofrimento fetal. O amor da minha vida esteve do meu lado no momento mais emocionante em que fomos apresentados à nossa pequena, que nasceu forte, saudável, gritando a plenos pulmões que chegou ao mundo para cantar canções de acordar.

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Gravidez – parte III: terceira gestação: as descobertas


Parte III – terceira gestação: as descob
Um mundo de possibilidades se abriu suplantando a memória anterior que associava gravidez à doença. Minha disposição tinha aumentado sensivelmente no primeiro trimestre. Praticamente não enjoei, tendo apenas que abrir mão do meu amigo café.
No segundo trimestre, parei de comer frango. O odor me deixava nauseada. Conseguia andar por longas distâncias sem me queixar, como, por exemplo, naquelas feiras intermináveis de bebê & gestante.
Tinha verdadeiro horror às decorações aristocráticas, com suas coroas e seus rótulos de princesa, seu rosa abundante, sua fofurização da menina. A essa altura, eu já sabia que era uma menina. E toda vez que alguém dizia que minha princesa estava por vir, eu me contorcia. Dizia para mim mesma: está a caminho minha aventureira, minha desbravadora, minha pesquisadora. Nunca tive coragem de dizer assim para as pessoas, porque sempre pensei no risco de ser mal interpretada, o que, em grande parte, envolvia pessoas muito queridas.
O terceiro trimestre foi barra pesada, mais especificamente a partir da metade do sétimo mês. Minha pressão, já alta antes da gravidez e que tinha estabilizado em medições normais durante os meses anteriores, começou a subir. Ganhei ainda mais peso que antes e tive a impressão de que isso se dava de forma muito rápida. Estava muito inchada e só conseguia usar o mesmo par de sandálias para tudo. Não conseguia manter o foco no trabalho. Ficar sentada por muitas horas me gerava um desconforto imenso. Mais que desconforto: cada vez que eu me levantava era dor mesmo o que eu sentia no pé da barriga. Andar se tornava mais difícil a cada dia. Às vezes eu chorava de cansaço. Dei para ter certa espécie de claustrofobia, sensação de não conseguir respirar com o quarto fechado. Mas não havia outra alternativa para dormir, pois tenho gatos e, se a porta se mantém aberta, tudo vira um imenso parque de diversões e dormir se torna impossível. Acordei várias vezes agoniada com essa sensação de asfixia. Tinha uma vontade imensa de chorar e não o fazia por receio de ficar com as narinas entupidas e piorar minha respiração. A ansiedade tomava conta de mim. Comecei a ouvir diariamente o mantra do Buda da Medicina. Na reta final, comecei a ler A sabedoria da transformação, de Monja Coen. Meu companheiro se mostrou permanentemente solidário e tentava me acalentar em todos os tipos de desconforto.

(Continua…)

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Gravidez – parte II: terceira gestação: a descoberta 


(Continuação)Mas por que raios eu desejava tanto ter um filho ou uma filha? Enxergo-me como alguém de afeto transbordante e sempre pensei que maternar me reservaria um percurso feliz.

Essa terceira experiência foi diferente de tudo que a precedeu desde o princípio. Das outras vezes, eu constatava a gravidez na primeira semana de atraso. Agora não foi bem assim que as coisas sucederam. Tirei uns dez dias de férias e fui fazer uma massagem divina com Ranuzya Cugnier (Rany), a moça de aura boa e mãos de fada. Ao final dessa mistura de massoterapia e reiki, ela me perguntou pela minha última menstruação, pois teria sentido formato e consistência diferentes na minha barriga, além de uma energia muito forte vinda do ventre. Eu não tinha como falar propriamente em atraso, uma vez que meus ciclos não são nada regulares. Comprei um teste de farmácia e, na manhã seguinte, lá estava: mais de três semanas de concepção.

Chorei copiosamente pensando no passado e no futuro. No retrovisor, via as experiências anteriores e não desejava revisitar essa dor nem permitir essa mácula de sofrimento com meu atual companheiro. No para-brisa, sabia que teria de abrir mão de um estilo de vida regado a liberdade e que dali por diante uma nova prioridade se instalaria em todas as direções.

(Continua…)

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Gravidez – parte I: a origem e as perdas


De origem humilde, nasci num lugar onde jovens engravidavam antes dos 16, sem orientação nem planejamento. Às moças, restava a evasão escolar; aos rapazes, muito pouca, quase nenhuma responsabilidade. Prendam suas cabras… Nesse universo, eu encarava a gestação como algo próprio do reino animal e não via qualquer diferença entre gerar um bebê humano ou um filhote de girafa.
Lembro-me de uma amiga querida que, após perda gestacional, engravidou de novo, me contou e eu não a felicitei. Eu tinha uns 15 anos na época. Desculpe, viu, doce amiga? Era assim mesmo que eu enxergava a vida naquela época: achava que havia mais mérito em prosseguir com os estudos, o que seria uma tomada de decisão, do que em engravidar, que eu encarava praticamente como mera falta de uso de métodos anticoncepcionais. Amorosamente, ela chamou a atenção para minha aparente indiferença e isso nunca saiu da minha cabeça.

Muitos anos depois, passei por duas experiências gestacionais sofridas. Ué? Parecia tão fácil.

Minha segunda gestação me reservou agruras das mais diversas, desde a sensação de estar permanentemente doente até a morte do meu bebê prematuro e especial aos 20 minutos de vida. Deu-se ali o real encontro com o que significava gerar uma vida e o paradoxo de saber que dar à luz seria, naquela circunstância, dar à morte.

Desisti da ideia de gerar um filho. No meu coração, sempre coube gente de toda forma, sem laço sanguíneo que nos defina.

    (Continua…)

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Novo 8 de Março – LADO A


Feminagem_Greve Internacional de Mulheres

Os discos de vinil ou long-plays, mídia para reprodução de música preponderante na segunda metade do século XX, possuem duas faces: o lado A e o lado B. Embora não houvesse regra escrita para isso, o costume cristalizou que o lado A dos discos normalmente trazia as faixas mais populares, muito executadas na rádio, e o lado B trazia os hits menos óbvios, as canções mais experimentais.

Há um ano, contrariando a norma geral, lancei o meu long-play – ou, mais modestamente dizendo, meu compacto simples (aquele disquinho pequenininho, que tocava só uns 4 minutos de cada lado) – feminista a partir de seu lado B: me concentrei nos desafios e dificuldades enfrentados pelas mulheres na busca de uma igualdade de gênero, os quais embasam essa luta que celebramos – e para que tomamos fôlego – a cada 8 de Março.

(Leia também o texto aqui: Novo 8 de Março – LADO B)

Desta vez, sem querer fingir que a peleja está ganha ou, menos ainda, sem olhar pelas lentes da ingenuidade, achei por bem estrear o lado A dessa obra fonográfica: vamos cantar e dançar os avanços observados nos anos recentes com relação à mobilização pelos direitos das mulheres?

A luta feminista não é nova e nem está tão próxima a alvorada que assistirá a libertação de todas. No entanto, temos de reconhecer, com alegria, que dentre tantas fissuras em nosso corpo social – oligárquico, racista, colonialista –, há muito tempo não assistíamos a uma mobilização de mulheres tão pulsante como a que temos, no Brasil, desde aproximadamente, 2015. Chamaram-na Primavera das Mulheres, expressão que cai bem tanto pela estação do ano em que começou a acontecer – cerca de setembro –, como pelo sentido de reflorescimento que ostenta.

A Primavera das Mulheres faz referência a uma série de articulações – independentes, mas, de alguma maneira, relacionadas – que lançaram luz sobre uma série de violências e de subtrações de direitos que toleramos neste Brasil, o 5° país a mais matar mulheres no mundo e onde ocorre um estupro a cada 11 minutos.

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Um dos primeiros dessa série de atos organizados por e para o direito das mulheres foi a campanha digital #primeiroassedio, promovida pela organização Think Olga. Ela foi motivada pela tempestade de comentários machistas e pedófilos nas redes sociais destinados a uma competidora de 12 anos na  edição brasileira do Masterchef infantil, programa televisivo em que crianças disputam o título de melhor cozinheiro/a. Para chamar a atenção sobre esse comportamento corriqueiro, o grupo feminista pediu que as mulheres brasileiras contassem seu primeiro caso de assédio sexual, marcando-o por meio da hashtag #primeiroassedio. As cerca de 80.000 mensagens transmitidas em menos de uma semana revelaram que a média de idade do primeiro abuso era de 9 a 10 anos de idade.

Em outubro de 2015 milhares de mulheres saíram às ruas para protestar contra o projeto de Lei 5069/2013, de autoria do ex-presidente da Câmara – atualmente preso – Eduardo Cunha. A proposta restringiria o atendimento a mulheres vítimas de violência sexual e o acesso delas ao aborto legal, ao exigir boletim de ocorrência e exame de corpo de delito, bem como retirar das instituições médicas a obrigação de realizar procedimentos – inclusive fornecer medicamentos como a pílula do dia seguinte e o coquetel anti-DSTs. Isso representaria não apenas uma criminalização da vítima mesma de violência sexual como a deslegitimação da voz das mulheres como a única prova necessária para deflagrar o atendimento médico.

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No mesmo período sobrevieram mobilizações de importantes grupos no escopo da representação feminina: as mulheres campesinas e as mulheres negras. A Marcha das Margaridas, a maior mobilização de mulheres da América Latina, que reúne trabalhadoras rurais, extrativistas, indígenas, quilombolas, marchou em Brasília – em número de 70.000 mulheres – por desenvolvimento sustentável com democracia, justiça, autonomia, igualdade e liberdade. Também na capital do país, a Marcha Nacional das Mulheres Negras levou mais de 50.000 mulheres às ruas contra o machismo e o racismo, sendo certo que são elas as mais atingidas pela violência sexual e obstetrícia, pelo risco de morte e pela precarização das relações de trabalho no Brasil.

Outro movimento que não teve início no Brasil, mas que lhe gera impactos na medida da possibilidade de uma articulação latino-americana foi #niunamenos. Ni Una Menos é um grito coletivo contra a violência machista, que surgiu na Argentina em resposta a necessidade de dar basta ao feminicídio – a cada 30 horas assassinam uma mulher apenas por ser mulher naquele país. A convocatória, que partiu da sociedade civil em seguida a feminicídios brutais, contagiou outros países da América Latina, como o Brasil, em mobilizações similares.

Feminagem_Ni Una Menos

É por isso que 8 de Março é data de luta, como a faixa do lado B do disco, que tocou ano passado, bem alertou. Mas também é momento de cantar e dançar este hit entre todas – mulheres negras, mulheres da periferia, mulheres campesinas, mulheres operárias, mulheres lésbicas, mulheres trans, mulheres mães, mulheres que abortam – as pequenas conquistas e as motivações para a derrocada de uma sociedade patriarcal, racista e classista. “O patriarcado tem data para terminar: 2030, que é o prazo que queremos ver todas as mulheres ocupando todos os espaços”, foi o que afirmou Nadine Gassman, representante da ONU Mulheres no Brasil, que tem chefiado campanhas pelo fim da violência contra as mulheres em toda a América Latina.

Para tanto, neste 8 de Março as mulheres vão parar: a Greve Internacional das Mulheres conclama todas – somos metade da população, estamos em todos os lugares do mundo – para exigirmos os mesmos direitos da outra metade: se nossas vidas não importam, que produzam sem nós.

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CONVOCAÇÃO PARA A GREVE INTERNACIONAL DE MULHERES NO BRASIL – 8 DE MARÇO

Neste 08 de março, a terra treme. As mulheres do mundo nos unimos e organizamos uma medida de força e um grito comum: Greve Internacional de Mulheres.

Nós paramos. Fazemos greve, nos organizamos e nos encontramos entre nós. Colocamos em prática o mundo no qual queremos viver.

#NósParamos

Paramos para denunciar:

Que o capital explora nossas economias informais, precárias e intermitentes.

Que os Estados nacionais e o mercado nos exploram quando nos endividam.

Que os Estados criminalizam nossos movimentos migratórios.

Que recebemos menos que os homens e que a diferença salarial chega, em média, a 26% na América Latina.

Que não é reconhecido que as tarefas domésticas e de cuidado são trabalhos não remunerados e adicionam três horas a nossas jornadas laborais.

Que estas violências econômicas aumentam nossa vulnerabilidade diante da violência machista, cujo extremo mais brutal são os feminicídios.

Paramos para reivindicar o direito ao aborto livre e para que não se obrigue nenhuma menina a enfrentar a maternidade.

Paramos para visibilizar o fato de que, enquanto tarefas de cuidado não sejam uma responsabilidade de toda a sociedade, nos vemos obrigadas a reproduzir a exploração classista e colonial entre mulheres. Para ir ao trabalho, dependemos de outras mulheres. Para migrar, dependemos de outras mulheres.

Paramos para valorizar o trabalho invisível que fazemos, que constrói redes de apoio e estratégias vitais em contextos difíceis e de crise.

#NãoEstamosTodas

Paramos porque estão ausentes as vítimas de feminicídio, vozes apagadas violentamente ao ritmo assustador de treze (13) por dia só no Brasil.

Estão ausentes lésbicas e travestis assassinadas por crimes de ódio.

Estão ausentes as presas políticas, as perseguidas e as assassinadas em nosso território latino-americano para defender a terra e seus recursos.

Estão ausentes as mulheres presas devido a delitos menores que criminalizam as formas de sobrevivência, enquanto os crimes corporativos e o tráfico de drogas permanecem impunes porque beneficiam o capital.

Estão ausentes as mortas e as presas por abortos inseguros.

Diante de lares que se tornam um verdadeiro inferno, nós nos organizamos para nos defendermos e cuidarmos umas das outras.

Diante do crime machista e da pedagogia da crueldade, diante da tentativa dos meios de comunicação de nos vitimizar e de nos aterrorizar, fazemos do luto individual um consolo coletivo e da raiva, uma luta compartilhada. Contra a crueldade, mais feminismo.

#NósNosOrganizamos

Nós usamos a estratégia da greve porque nossas demandas são urgentes. Fazemos da greve de mulheres uma medida ampla e atualizada, capaz de abrigar empregadas e desempregadas, a assalariadas e as que cobram subsídios, a autônomas e estudantes, porque todas somos trabalhadoras. Nós paramos.

Nós nos organizamos contra o confinamento doméstico, contra a maternidade compulsória e contra a competição entre as mulheres, práticas impulsionadas pelo mercado e pelo modelo de família patriarcal.

Nós nos organizamos em todas as parte: nas casas, nas ruas, no trabalho, nas escolas, nas feiras, nos bairros. A força do nosso movimento está nos laços que criamos entre nós.

Nós nos organizamos para mudar tudo isso.

#InternacionalFeminista

Nós tecemos um novo internacionalismo. A partir das situações concretas em que estamos, nós interpretamos a conjuntura.

Vemos que, diante do avanço neo-conservador na região e no mundo, o movimento das mulheres emerge como potência de alternativa.

Que a nova “caça às bruxas”, que agora persegue o que nomeia como “ideologia de gênero”, tenta justamente combater e neutralizar nossa força e quebrar nossa vontade.

Diante das múltiplas desapropriações, das expropriações e das guerras contemporâneas que têm a terra e os corpos das mulheres como territórios favoritos de conquista, nós nos incorporamos política e espiritualmente.

#ODesejoNosMove

Porque #VivasELivresNosQueremos, nos arriscamos em alianças incomuns.

Porque nos apropriamos do tempo e construímos juntas a disponibilidade. Fazemos da nossa reunião um alívio e uma conversa entre aliadas; das assembleias, manifestações; das manifestações, uma festa; e da festa, um futuro em comum.

Porque #EstamosJuntas, este 8 de março é o primeiro dia de nossa nova vida.

Porque #ODesejoNosMove, 2017 é o momento da nossa revolução.

#NemUmaAMenos

#VivaNosQueremos

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Algumas referências:

http://thinkolga.com/

http://niunamenos.com.ar/

http://www.8mbrasil.com

http://www.onumulheres.org.br/

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O que o feminismo me ensinou


Estive pensando em mim e em muitas outras mulheres que foram modificando suas visões de mundo por conta do feminismo e resolvi arrolar algumas questões tidas como corriqueiras, mas que passaram a ter tratamento diferenciado de nossa parte.

1) Sobre traição: Sabe aquela sua amiga linda, inteligente, independente, bem-resolvida, que é trocada por uma mulher vulgar, sem classe, piriguete? Vamos aos fatos, esclarecendo tintim por tintim, o que o feminismo me ensinou. Primeiro: se há um acordo monogâmico, de relacionamento fechado, o que pressupõe fidelidade, o problema não está no terceiro vértice, mas no parceiro que não honrou o compromisso assumido. Não importa quem é a outra pessoa. Segundo: não há escalonamento de mulheres, não há gradação entre mais ou menos “certificadas” por algum padrão de qualidade. Isso é o que querem que você pense em prol da padronização de comportamentos e da condenação de quem se assume transgressora. É importante respeitar a diversidade e as identidades. No mesmo esteio, encontram-se as comparações entre uma mulher e outra. Ah, mas fulana é mais bonita! Não importa! Continua, nessa observação, a tal tentativa de escalonamento. Terceiro: a menos que elas realmente tenham sido objetificadas pelo “macho acasalador”, uma pessoa não é “trocada” por outra. Os relacionamentos se transformam e o amor pode, inclusive, acabar. Estamos vivos. Faz parte.

2) Sobre maternidade: Que mulher fraca essa que não quer o parto normal! Que mulher egoísta essa que não quer amamentar no peito, quanto comodismo! O que o feminismo me ensinou? Uma mãe é uma mãe. Não importa o tipo de parto, o tipo de amamentação, nada disso interfere no cuidado da mulher com o filho/a filha. Ninguém é menos mãe em função dessas escolhas ou dessas contingências. Uma mulher que faz cesariana e amamenta com fórmula não ama menos a sua cria do que aquela que encarou o parto normal e amamenta no peito.

3) Sobre divisão de tarefas: Fulano é um amor! Ele até me ajuda nas tarefas domésticas e no cuidado com as crianças! O que o feminismo me ensinou? As pessoas que habitam uma casa são responsáveis por sua limpeza e manutenção. As pessoas que têm filhos pequenos deveriam se sentir responsáveis por atendê-los em suas necessidades físicas e emocionais. Quando se admite o uso da palavra “ajuda”, fica claro que as obrigações cabem a uma das partes e a outra (sabe como é, né?) ajuda, ajuda quado pode, ajuda quando dá, ajuda quando quer.

4) Ainda sobre divisão de tarefas: Nossa, fulano é tão enrolado, não faz nada direito, por isso que nem deixo ele chegar perto da cozinha! O que o feminismo me ensinou? As pessoas têm formas diferentes de fazer as mesmas coisas, principalmente levando-se em consideração que, muitas vezes, ao longo de toda a formação, as mulheres são “escaladas” para os cuidados domésticos e não os homens. Assim, não seria incomum que elas demonstrassem maior desenvoltura em muitos assuntos relativos à casa. Em prol da igualdade, é importante que as pessoas façam as coisas como sabem fazer.

5) Sobre a sacralidade do futebol: Fulano não perde um jogo do time dele e encontra os amigos para uma pelada regularmente uma vez por semana. O que o feminismo me ensinou? Que bom para ele! Homens e mulheres crescem sendo socializados de forma diferente e isso impacta nossos relacionamentos com os amigos e com os amores. Vejam vocês: que tipo de programa as mulheres costumam fazer juntas semanalmente? De que tipo de atividade não abrem mão pelo parceiro (ou pela parceira, que seja)? É preciso buscar essas fontes de prazer na sintonia coletiva, sentir-se parte de um grupo, reservar um momento sagrado para a descontração, para a ludicidade.

Mas, afinal, o que o feminismo me ensinou? O respeito às mulheres, todas as mulheres, sem distinção de cor, raça, credo, preferência sexual, grau de escolaridade, classe social, gosto musical, comportamento, vestimenta. Em um mundo em que as mulheres continuam sendo continuamente oprimidas, abusadas e mortas, colocar-nos umas contra as outras não faz o menor sentido.

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Manifestantes em protesto feminista em São Paulo, em maio de 2014 (Foto: Carla Carniel / FRAME)

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Intimidade devassada: a culpa não é sua


Escrevo esse texto mais para mim mesma do que pra quem vai ler depois. Comecei um novo projeto dentro do meu quarto chamado AME-SE. Mas para explicá-lo melhor preciso primeiro contar o que deu origem a tudo isso.

Quando eu tinha 15 anos alguns garotos se juntaram e me roubaram o celular em sala de aula. Colocaram no Achados e Perdidos do colégio para que eu não descobrisse o que tinha acontecido. Algum tempo depois, descobri que vídeos e fotos minhas se espalharam pela internet. A partir desse momento minha vida nunca mais foi a mesma. Eu sofri muito bullying. Garotos e garotas começaram a gritar frases grosseiras no meio da aula para me ofender. Eu sofri horrores, mas minha mãe dizia que logo tudo ia passar. Grande engano o dela. E o meu.

Um ano depois começou a onda de grupos de “putaria” no Whatsapp, e foi aí que as coisas tomaram uma proporção maior ainda. O bairro todo onde eu morava sabia do meu vídeo. Perdi amizades que passaram a me tratar como se eu fosse uma vagabunda. Pedi pros meus pais irem no colégio para que eu não sofresse mais dentro de sala. A coordenação da escola conversou com os pais dos responsáveis, mas, no geral, nada mudou. Eles abafaram o caso para que ninguém de fora descobrisse. E a cada dia tudo foi ficando pior. Pais de amigos meus não deixavam mais que seus filhos fossem em minha casa. Tive problemas com meu ex-namorado porque a mãe dele achava que eu não era mulher para casar. E tudo que eu conseguia pensar era: Por que alguém fez isso comigo? Quando descobri quem foi, o choque foi ainda maior. Eram pessoas que eu considerava amigos. Isso mesmo, não foi uma pessoa, foi um grupo. E o que mais me incomodava era saber que todos sairiam impunes dessa história.

Eu até hoje tenho problemas para começar relacionamentos porque tenho medo do que vão pensar de mim. Eu nunca mais consegui confiar em alguém da mesma forma. Eu perdi diversos amigos durante esse tempo e minha autoestima foi se acabando aos poucos.

É muito difícil  escrever sobre todo esse sofrimento que ficou guardado dentro de mim por tanto tempo. Se não fosse a minha família, eu não sei como teria superado. Eu perdi a autoconfiança que tinha e o amor por mim mesma. Eu perdi toda a vida que tinha. Isso me destruiu por dentro… Minha vontade era nunca mais acordar.

Quando entrei na faculdade, as coisas melhoraram um pouco. Fiz amigos novos que não sabiam do meu vídeo. Apesar disso, meu medo de que fosse descoberto era maior a cada dia. Mas hoje eu olho para o meu passado e resolvi que não vai mais ser assim. Então decidi começar o projeto AME-SE, que nada mais é do que encher o meu quarto com frases. Frases para me lembrar todo dia de minhas qualidades, de todas as coisas que amo em mim e que mostram o meu valor. Colori diversos cartazes e colei pelo meu quarto inteiro, para nunca me esquecer do quanto eu sou importante. A frase que eu mais gosto é: “Vá na frente do espelho, olhe para si mesma e diga: Você é linda.”

Eu sou linda. Nós somos lindas.

E mais ainda, somos guerreiras. Se eu consigo superar tudo que aconteceu comigo foi porque sei que não sou a única e sei que não estou sozinha. Diversas mulheres passam todo dia pelo que eu passei, ou pior. Foi por isso que decidi compartilhar a minha ideia aqui. A vida de cada uma de nós é muito importante. Mulher, seja forte. Valorize-se. Nunca desista de seus sonhos.

E por último, gostaria de pedir a todas as pessoas que leram esse texto, que pensem três vezes antes de fazerem algo do tipo. Se você ou algum amigo seu está passando por um caso parecido, denuncie. Cyber-bullying é crime. Uma atitude dessas pode acabar com a vida de uma pessoa.

Yasmin, estudante de estatística e escritora nas horas vagas. Mas além de tudo, uma mulher que tenta transformar o mundo, com um passo de cada vez.

Yasmin, estudante de estatística e escritora nas horas vagas. Mas, além de tudo, uma mulher que tenta transformar o mundo, com um passo de cada vez.

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Não sei nada sobre ideologia de gênero, mas sou contra


Acabei de assistir a um vídeo no Youtube que me deixou bastante impressionada, pois se propunha a esclarecer rapidamente o que seria a ideologia de gênero. Bem realizado do ponto de vista da atratividade a ser exercida sobre o público, o material, no entanto, degringola a emitir falsos conceitos sobre o que seria a chamada ideologia de gênero. Nesse contexto, quem aceita os pressupostos por ele defendidos como verdade, tenderia imediatamente a rechaçar a ideologia, julgando já conhecê-la o suficiente para isso. Em linhas gerais, a produção afirmava que, ao levar tal teoria para a escola, meninos e meninas seriam despojados de sua identidade, tornando-se seres confusos em relação a si mesmos, ocasionando o fim da família.

O que pretendo aqui é expor didaticamente quais seriam as bases que alicerçam a ideologia de gênero, segundo entendimento que tenho acompanhado de seus defensores.

Estariam os seres humanos submetidos, quanto à questão dos gêneros, a quatro norteadores: sexo biológico, orientação sexual, identidade sexual e identidade de gênero.

O sexo biológico, como muitos já sabem, é definido no momento da fecundação. Todo óvulo possui um cromossomo X. Os espermatozoides podem conter cromossomos X ou Y. Se o óvulo for fecundado por um espermatozoide do tipo X, o bebê será XX, do sexo feminino. Se o óvulo for fecundado por um espermatozoide do tipo Y, o bebê será XY, do sexo masculino. A partir de então, cada um deles formará seu aparelho genital. Palmas para quem diz que nascemos homem e mulher. Faz sentido.

Mas os seres humanos são complexos e há muito mais a definir e identificar as pessoas do que ter nascido com piupiu ou com perereca. Quanto à orientação sexual não se trata puramente de uma escolha, mas de uma inclinação motivada pelo desejo sexual e pelo bem-estar, o que envolve questões de ordem afetiva e sexual.  Temos aí pessoas homossexuais, heterossexuais, bissexuais. O que se traz entre as pernas não é suficiente para determinar a atração por outras pessoas.

A identidade sexual e a identidade de gênero se mesclam para mim e têm a ver com a maneira como as pessoas veem a si mesmas e na maneira como a sociedade as encara. Na parte da autoimagem, está incluída a capacidade de as pessoas reconhecerem-se pertencentes a determinado grupo, com determinadas características. As pessoas podem ser cisgênero (quando a expressão social ou identidade de gênero são correlacionadas ao sexo do nascimento), transgênero (quando a expressão social ou identidade de gênero não são correlacionadas ao sexo do nascimento). O que pode causar certo estranhamento é entender que o transgênero não é necessariamente homossexual. Apelemos para a ficção: que tal assistir a Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar? Travestis podem sentir-se como homens ou como mulheres, tratando-se, para el@s, de uma questão variável. Os transexuais identificam-se com o gênero oposto ao do sexo com que nasceram e, na maioria dos relatos, consideram-se no corpo errado. Para entender melhor a questão, que tal assistir ao documentário “Meu Eu Secreto – Histórias de Crianças Trans“? Já @ cartunista Laerte defende que a ideologia de gênero mesmo é a que se pratica amplamente nas escolas hoje, confundindo as pessoas e acirrando diferenças, no momento em que se baseia em um binarismo que não dá conta da complexidade da existência humana (veja entrevista).

Já quanto à forma como a sociedade enxerga as pessoas, definindo-lhes previamente papéis e comportamentos sociais, impondo expectativas e limitações, isso sim tem a ver com construção social.  Salve Simone de Beauvoir, tão citada quanto incompreendida! Quando se espera, por exemplo, que uma menina seja sempre delicada, goste de rosa, não seja aplicada aos esportes e goste de brincar de bonecas, ou quando se espera que o menino seja grosseiro, deteste rosa, seja bom esportista e goste de brincar de carrinhos, tudo isso está envolvido na questão da identidade de gênero, que é por demais limitadora, enquadrando as pessoas em papéis, sem que elas se deem conta das múltiplas possibilidades de realização. Rumando à vida adulta, a concepção de que a mulher precisa se dar o respeito, falar baixo, resguardar-se sexualmente, chorar, e a de que o homem precisa ser espeitado apenas por ser homem, falar alto, aproveitar as oportunidades sexuais que se lhe apresentam Aqui não se está falando de sexualidade, ok, mas de expectativas geradas por parcelas consideráveis da sociedade por conta da identidade. Para entender de forma bem simples, sugiro o anúncio intitulado “Corra como uma menina”.

Não tenho talento para desenhar, mas alguém já o fez por mim. Que bom! Está aqui o resumo de todo esse papo aqui de cima.

 

Desenhando...

Desenhando…

O que a ideologia de gênero teria a trazer às escolas e à sociedade?  Antes de responder a essa pergunta, poderia ser interessante pensarmos sobre outras.  Quem é a maior vítima de violência doméstica: o homem ou a mulher? Quem é morto por exercer sua sexualidade: o hetero ou o homossexual? Quem é perseguido e ridicularizado nas ruas: o cis ou o transgênero? A qual deles se fecham as portas do mercado de trabalho? A qual deles se fecham as portas, muito antes, ainda na escola? Qual deles costuma ser rejeitado pela família?

Dizer que os defensores da ideologia de gênero são contra a família é a maior das falácias. O que defendemos é que, no bojo do respeito aos indivíduos, possa-se respeitar também as mais diferentes composições familiares. Para compreender melhor o que pode ser esse convívio tão amoroso e familiar, no seio de uma família que acolhe entre seus membros uma trans, recomendo um documentário, tão delicado quanto sua protagonista: “ Meu nome é Jaque”.

O que a ideologia de gênero teria a trazer às escolas e à sociedade?  Sobretudo respeito. O respeito às diferenças e o reforço da cultura de paz, evitando-se o bullying e o preconceito. Não se trata de assexuar ou sexualizar precocemente meninos e meninas, mas sim de potencializar suas habilidades, que não podem estar circunscritas a questões de gênero: meninos podem brincar de boneca (serão pais um dia), meninas podem brincar de carrinho (terão carteira de motorista um dia). A longo prazo, poderíamos ver diminuída a violência doméstica e a violência cometida contra aqueles que não se enquadram num “padrão heteronormativo”, à medida em que a maioria pudesse enxergar uns aos outros apenas como pessoas, sem rótulos que “incitem ou justifiquem” qualquer repressão ou agressão.

 

Inclusão não é para os pares.

Inclusão não é para os pares.

Agora para relaxar, um pouquinho de Titãs: 

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Anticoncepcionais hormonais: liberdade sexual para quem?


Por Irene Mestriani

Esta breve nota se abre com um tom deliberadamente biográfico, senão confessional . Fiz uso quase ininterrupto de pílula anticoncepcional dos 14 aos 30 e poucos. Sempre me considerei sexualmente livre. Com isso quero dizer que nunca reprimi qualquer contato sexual desejado em nome de certos preceitos morais cujo sentido nunca se fez claro para minha pessoa, preceitos que transparecem em ditos como “não pode trepar na primeira vez que fica”, ou no conto-da-carochinha  da fidelidade em relacionamentos. Ambos preceitos, diga-se de passagem, têm validade sob a condição de que os sujeitos das referidas ações sejam femininos. É ela quem não pode dar na primeira vez. É ela quem tem de ser fiel – e se, muitas vezes, (talvez até mais) criaturas masculinas (do que femininas) endossam o conto-da-carochinha da fidelidade, não deixa de ser por estarem psicológica e socialmente menos preparadas para lidar com a possibilidade apavorante de os corpos de suas amadas, amantes, ou o que quer que seja, não serem seus territórios exclusivos. Não estou exatamente levantando bandeiras que no fim das contas parecem querer impor normas (outras, mas, ainda assim, normas) aos acordos entre pessoas e afetos. Mas não consigo não me incomodar com a lógica territorial que, nos consensos tortos da nossa sociedade, molda a forma como muitas criaturas masculinas abordam as femininas, ou melhor seus corpos, e pior, por vezes sem sequer dar-se conta disto.

Não há dúvidas de que tomar anticoncepcional teve papel importante na minha liberdade e nas minhas descobertas, permitindo mesmo os questionamentos que abrem esta nota. Mas há um outro lado dos anticoncepcionais sobre o qual não se fala muito, ou pelo menos não o suficiente, a meu ver. Lado que conheci, como muitas mulheres, ao interromper o uso do medicamento. Os  primeiros meses sem a pílula após anos de uso foram um grande susto. Mais brusco que na adolescência talvez. Sentir-me fervilhar, do nada, em um determinado período do mês, um tesão onipresente carecendo de qualquer estímulo externo, se manifestando a cada esbarrar involuntário do meu corpo  com o ambiente… e pensar nos anos em que fui privada disso com a estabilidade hormonal linear induzida pela pílula. Estudos que tenho preguiça de ir buscar para citar atestam a diminuição da produção de testosterona pelos ovários de usuárias de anticoncepcionais hormonais. Sim, uma das indicações destes anticoncepcionais também é a de diminuir os sintomas da TPM. Mas o padrão de uma estabilidade linear hormonal-fisiológica-emocional não é uma norma de saúde universal, é um padrão de funcionamento do corpo masculino.

A TPM só é um problema em um mundo arquitetado com base na estabilidade linear  hormonal masculina. Minhas habilidades e afetos variam com a lua. Mas o mundo em que vivo nem sempre permite adequar o calendário de minhas atividades às fases de meu ciclo menstrual. Estudos sugerem que a produção de serotonina (sim, essa substância que uma penca de gente nos dias de hoje produz com auxílio dos antidepressivos) nas mulheres varia drasticamente segundo as fases do ciclo, atingindo seu auge no período da ovulação e baixando muito, podendo chegar a zero, nos dias que antecedem a menstruação. O mundo profissional atual foi primeiro habitado quase exclusivamente por homens, seus ritmos são masculinos. Não há regras fixas, cada organismo é sempre único, mas adoraria ter folga nos primeiros dias do ciclo menstrual, carga horária reduzida nas vésperas do início do ciclo, e carga horária aumentada para compensar as folgas e reduções anteriores nos dias que circundam minha ovulação. Em muitas culturas, sobretudo as tribais, as mulheres vivem em uma verdadeira irmandade, revezando as tarefas segundo seus ciclos. Também revezam os cuidados com recém-nascidos, amamentação inclusive. O isolamento feminino nas sociedades ocidentais pós revolução industrial com o advento da família nuclear é terreno fértil para o que se definiu como histeria. Com a inclusão das pessoas femininas no mercado de trabalho capitalista, e com os avanços nas reivindicações mesmas sobre a  igualdade de gêneros, o isolamento pode ter diminuído, embora não significativamente a ponto de vermos explícita e banalmente irmandades em funcionamento.

A família nuclear promove uma concepção extremamente sexista dos relacionamentos em geral e dos papéis parentais em particular: toda a responsabilidade concernente ao bebê recai sobre a mãe. (Nesse sentido, mulheres de classe média alta de países pobres como os da América Latina são grandes privilegiadas, talvez as únicas no mundo ocidental que tenham se aproximado de fato da igualdade de gêneros, porém, e muito infelizmente, às custas da exploração de mão de obra barata, pois foram babás e domésticas que permitiram sua inclusão competitiva no mercado de trabalho). É o isolamento imposto pela família nuclear somado ao imperativo de ignorar o ritmo cíclico de seus corpos e afetos para se adequar a um mercado de trabalho inicialmente concebido por homens que instaura a TPM. Não fosse a linearidade hormonal masculina tomada como norma, ou de modo mais concreto, tivessem as mulheres a possibilidade de organizar suas vidas profissionais em consonância com seus ciclos menstruais, o período que antecede a menstruação, um período em que o corpo pede recolhimento e descanso, não teria nenhuma tensão. Tenso é viver em um mundo que não respeita o ritmo do seu corpo. Tenso é aniquilar a natureza cíclica deste corpo, e com isso a maior parte de seus recursos, através do consumo de anticoncepcionais hormonais.

Assim, um medicamento-produto vendido como promovedor da liberdade sexual feminina cria uma legião  considerável  de moças sem libido e dóceis (baixa de testosterona). Ou seja: domesticadas. Desconhecedoras dos recursos, não apenas sexuais, de seus próprios corpos. E que, ainda assim, continuam consumindo o medicamento para o prazer do(s) seu(s) parceiro(s), confortavelmente eximidos da preocupação com uma eventual concepção. Nos dias de hoje, se a pílula traz liberdade sexual, essa liberdade é masculina. A mesma lógica que faz recair praticamente toda a responsabilidade da criação de um bebê sobre a mãe opera na forma como se pensa a contracepção no uso de métodos hormonais. A gravidez é algo de que a mulher deve se proteger e concerne exclusivamente o feminino. O machismo distribui a passividade entre os gêneros como melhor lhe convém.  O objetivo das relações sexuais que não desejam bebês são orgasmos. É o orgasmo masculino que engravida, mas um homem já é muito bacana se divide a preocupação em torno da contracepção com uma mulher. Raros são os que realmente cuidam disso por si próprios.

Não precisa inventarem a “pílula masculina” como se ouve por aí. Até porque os métodos contraceptivos medicamentosos são reféns da indústria farmacêutica. Esta talvez tenha se tornado a arqui-inimiga da liberdade sexual feminina. Comprimidos, adesivos ou anéis de uso contínuo são mais lucrativos que métodos contraceptivos de barreira, como o diafragma, que é inclusive reutilizável por até 3 anos, necessitando de um gel que se aplica apenas quando do uso, ou seja, como a camisinha, que só se usa todo dia se transar todo dia. E o diafragma, considerado obsoleto por ginecologistas que distribuem “amostras grátis” da mais nova pílula de um grande laboratório farmacêutico, ainda tem a vantagem de poder servir de coletor menstrual. É verdade que o gel espermicida utilizado anteriormente com os diafragmas continha uma substância altamente nociva – o nonoxynol 9 – e este parece ser o principal argumento para considerar o diafragma um método “obsoleto”. Porém, nos últimos anos, laboratórios europeus desenvolveram um novo gel, cuja composição traz apenas substâncias já presentes nos organismos humanos. Outro porém: a ANVISA não autorizou o pedido de comercialização desse novo gel em nosso país (segundo a resposta de um desses laboratórios ao e-mail que enviei quando retornei do Canadá para o Brasil), muito embora camisinhas com espermicida contendo o nonoxynol-9 continuem presentes nas prateleiras de farmácias brasileiras. De modo que, muito lamentavelmente, hoje em dia só há um fabricante de diafragmas no Brasil e NENHUM fabricante ou distribuidor do gel que deve ser usado junto.

A liberdade a que almejo atua pelo respeito à diferença. A imposição de um ritmo linear a um organismo cíclico está muito aquém disso. É uma afronta.

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